O APAGAMENTO DE IDOSOS COM ALZHEIMER

                Na sociedade brasileira é infelizmente comum que pessoas com Alzheimer enfrentem discriminação e exclusão, esta é uma doença que afeta não apenas a saúde do corpo, mas também diversos outros aspectos da vida, como relações entre familiares, dependência de cuidadores, autoestima, e o sentido ou lugar que se ocupa na sociedade, o estudo de Fruet et al. (2023) reforça essas contradições, através de entrevistas diretamente com cuidadores e idosos, é evidente o quanto a doença pode ser debilitadora, colocando as famílias e os idosos em um dilema difícil, entre aceitar o diagnóstico e as dificuldades, mas também buscar por uma vida ativa e de qualidade, tanto para as famílias quanto para os idosos.
                 Nesta pesquisa, um dos desafios apresentados recorrentemente pelos idosos esta relacionado diretamente a perda de atividades, os idosos entrevistados se queixam de não poder viver a vida como viviam antes do diagnóstico, perda de autonomia, liberdade, e a presença constante de cuidadores se torna cansativo, estressante, e um desafio. Infelizmente estas dificuldades não apenas representam uma dificuldade gerada pela doença, como também é atravessada por um problema social, o preconceito e a exclusão da longevidade, como resultado do modelo biomédico de saúde.
             A perspectiva tradicional de longevidade compreende a longevidade como um período composto de perdas, déficits, e declínios, sejam estas mudanças biológicas no organismo do sujeito ou mudanças em seu funcionamento cognitivo, resultado de declínio da função celular, doenças, redução da imunidade, declínio cognitivo, e maior suscetibilidade a transtornos mentais (PIRES et al., 2024). Nessa perspectiva biomédica, a longevidade seria um período composto quase que exclusivamente por doenças, prejuízos, e sofrimento, essa percepção é tão enraizada em nossa cultura que segundo o Jornal da USP (2023) a Organização Mundial da Saúde (OMS) tentou adicionar a longevidade na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde – CID11, diversos setores na sociedade se mobilizaram contra a classificação, que representa um retrocesso na forma de compreender a longevidade, e levantaram a bandeira de que ser idoso não é necessariamente ser doente.

             Ainda assim, carregamos na cultura brasileira este estereotipo, decorrente da perspectiva reducionista tradicional que defende o desenvolvimento humano como etapas de maturação biológica em um processo serial (OLIVEIRA, 2004), seguindo este modelo a população idosa estaria na “ultima etapa”, degradados pelo tempo e pela vida. Todos esses preconceitos agravam as relações de pessoas com Alzheimer na sociedade, não somente no Brasil mas em outras regiões pelo mundo, em 2013 Lisa Snyder, assistente social clínica e diretora no Centro de Pesquisa sobre Doença de Alzheimer Shiley-Marcos, da Universidade da Califórnia, denunciava em seu livro “Alzheimer: quando nossa mente fala” a enorme dificuldade das famílias e da classe médica estadunidense em acolher, humanizar, e respeitar pessoas diagnosticadas com Alzheimer, durante seu trabalho realizou diversas entrevistas com esta população, homens e mulheres, de diferentes idades, Lisa recolheu experiências emocionais e existenciais profundas.
           Não são incomuns relatos de idosos expondo o completo descaso com sua vida e saúde após receber o diagnóstico de Alzheimer, sendo imediatamente tratados como objetos, sem sonhos, indignos do trabalho, não convidados para momentos em família, e desconsiderados para eventos importantes, como se fossem mortos em vida. Em diversos outros relatos, os idosos argumentam que são reduzidos ao diagnóstico, como se não fossem nada mais além do Alzheimer, argumentando que suas emoções, reações, interesses, eram reduzidos como condição da doença, em decorrência desse profundo apagamento muitos idosos ficam nervosos, ansiosos, e irritados, demonstrando uma reação normal diante da brutal negligência e exclusão, no entanto as famílias entendem estes momentos como “sintomas do Alzheimer” ignorando as emoções, consciência, e a capacidade do idoso em compreender sua realidade.
               Esse conjunto de situações revelam a complexidade do Alzheimer, onde o sujeito não só sente um “apagamento” funcional em decorrência dos prejuízos cognitivos, como também um apagamento existencial, no sentido de ser visto não mais como pessoa, mas como descarte, a pesquisa de Snyder trás a tona um movimento de desumanização presente em famílias e profissionais da saúde, que passam a ignorar a existência do idoso em vida. Em contrapartida, no contexto brasileiro Fruet et al. (2023) demonstra que diversas famílias estão preocupadas com a saúde de seus familiares acometidos pela doença, evidenciando o oposto da situação nos Estados Unidos, no cenário brasileiro as famílias e em especial os cuidadores sentem-se desamparadas, são diversos os casos de depressão, estresse, dificuldades em gerenciar o tempo, perda de individualidade, dentre outros fatores. De acordo com a pesquisa, pessoas acometidas pelo Alzheimer podem demandar um cuidado e assistência integral e multifatorial, levando a uma reorganização completa da família, do tempo, e dos recursos, muitos desses idosos não podem ficar desassistidos,  de modo que não são incomuns os relatos de cuidadores afirmando que sua principal prioridade e foco esta na saúde da pessoa acometida em tempo integral. 
              Os autores propõem mudanças sociais relevantes para o bem-estar das famílias e das pessoas com Alzheimer, apresentando uma perspectiva mais ampla de cuidado integral, intervenções multicomponentes para melhorar a saúde, educação em saúde, ressignificação da vida e doença, e auxilio comunitário intersetorial para intervir na saúde e cuidado das famílias, dos cuidadores, e dos idosos, cuidar da saúde de quem cuida é fundamental, esta proposta é uma  alternativa em oposição ao modelo biomédico, as intervenções propostas pelos autores não estão apenas no organismo, na biologia, ou nas práticas clínicas, mas na sociedade, na cultura, e nas relações desenvolvidas entre os sujeitos. 

              Em oposição ao modelo biomédico,  Oliveira (2004), afirma que a mente humana e a identidade é desenvolvida por meio de uma relação complexa entre atividades e signos, o autor apresenta uma perspectiva contextualizada e externalizada da mente, em que esta não é algo “dentro” do sujeito, mas sim o resultado de uma interação complexa entre fatores ontogenéticos, sociogenéticos, atividade, e linguagem. Nesse sentido, as etapas da vida são constituídas a partir do próprio fazer do sujeito e do significado atribuído a cada atividade. Ou seja, a subjetividade (significados) é moldada pela ação que o indivíduo estabelece com seu mundo, e a ação do sujeito, por sua vez, é moldada pelos significados atribuídos as ações, trazendo uma perspectiva de interação mútua entre a cultura e o mundo interno, assim em oposição ao reducionismo o autor defende uma compreensão de desenvolvimento com base nos pilares da filogênese (determinações biológicas), ontogênese (etapa de sua vida individual), sociogênese (cultura, grupo social, história), e microgênese (elementos idiossincráticos, qualia)
                Outro autor que caminha em uma direção semelhante é Palacios (1995, p. 9) que entende o desenvolvimento humano partindo de:                             

1) a etapa da vida em que a pessoa se encontra

2) as circunstâncias culturais, históricas, e sociais nas quais sua existência transcorre

3) experiências particulares privadas de cada um e não generalizaveis a outras pessoas

               Dessa forma, a longevidade é mais do que um processo biológico em curso, se trata de um conjunto de múltiplos fatores e contingências, como a ação do sujeito, o significado atribuído as ações, a vida pregressa até o momento presente, as crenças coletivas a sua volta, a sua maneira particular de experienciar a própria vida, dentre outros fatores. O desenvolvimento humano é uma soma de processos históricos e socioculturais responsáveis pela formação da subjetividade, esta compreensão demonstra que é necessário olhar para a longevidade com diversidade, é possível desenvolver Alzheimer e ser feliz, é possível ser idoso e experienciar qualidade em sua vida, é possível ter um envelhecimento ativo, mas para que isso seja alcançado é necessário uma transformação na forma de compreender a saúde e o ser humano, precisamos olhar para o apoio comunitário, a educação coletiva em saúde, e possibilitar condições contextuais para que seja possível agir diferente. 

                                                                           
                                                                                                             REFERÊNCIAS

FRUET, Ana Carolina; COLOMÉ, Juliana; SAIBT, Juliana; COLPO, Elisângela. Repercussões da doença de Alzheimer no cotidiano do idoso e cuidador familiar. Psicologia, Saúde & Doenças, Lisboa, v. 24, n. 1, p. 279-288, 2023.

 Sociedade Portuguesa de Psicologia da Saúde. ISSN 2182-8407. Disponível em: https://doi.org/10.15309/23psd240124. Acesso em: 24 out. 2025.

PIRES, Stéfanie de Barros; PENA, Ana Carolina Vegas; FERNANDES, Rafaella Ribeiro Falcão; IBAÑEZ, Letícia Galdino; OLIVEIRA, Giselle Fernanda Tenório Medeiros; AMORIM, Mariana Freire Cabral; PONTES, Danilo Henrique Azevedo; CARVALHO, Rayalla Santos Rodrigues; LACERDA, Saskya Lorena Ramos; SOUSA, Joquebede Pereira de Araújo; TERUEL, Nayara Monteiro Rocha; CAMERINO, Júlia Sussuarana Galvão; GUEDES, Maria Eduarda Neves Cavalcanti; LESSA, Dayse Scoot dos Santos; ALBUQUERQUE, Maria Eduarda Vieira de. Longevidade em idosos: fatores determinantes e estratégias para o envelhecimento saudável. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 7, n. 4, p. 533-542, 2025.

JORNAL DA USP. Após pressão, OMS recua em classificar a velhice como doença. Jornal da USP, São Paulo, 7 jul. 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/apos-pressao-oms-recuar-em-classificar-a-velhice-como-doenca/ . Acesso em: 24 out. 2025.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Ciclos de vida: algumas questões sobre a psicologia do adulto. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30, n. 2, p. 211-229, maio/ago. 2004.
PALACIOS, J. Introdução à psicologia evolutiva: história, conceitos básicos e metodologia. In: COLL, C.; PALACIOS, J.; MARCHESI, A. (Orgs.). Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia evolutiva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

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